Sexta-feira, 09 de outubro de 2026
Política

Apoio com compromissos: veja o que Cleitinho e Cury pediram a Flávio Bolsonaro no 2º turno

Governador eleito de Minas cobrou renegociação da dívida bilionária do estado e defendeu o fim da escala 6x1; Augusto Cury condicionou sua adesão a uma carta com oito compromissos, que foi assinada pelo candidato do PL.

Apoio com compromissos: veja o que Cleitinho e Cury pediram a Flávio Bolsonaro no 2º turno

O apoio de duas figuras importantes do primeiro turno a Flávio Bolsonaro (PL) veio acompanhado de cobranças.

De um lado, o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), colocou na mesa temas diretamente ligados aos mineiros, como a dívida do estado com a União.

Do outro, Augusto Cury (Avante), terceiro colocado na eleição presidencial, apresentou uma lista com oito compromissos e só anunciou oficialmente seu apoio depois que Flávio assinou o documento.

Mas os dois casos são diferentes.

Cleitinho já havia manifestado apoio a Flávio desde antes da eleição e não apresentou suas demandas formalmente como uma condição para votar no candidato. Cury, por sua vez, condicionou explicitamente seu apoio à assinatura de um termo de compromisso.

Cleitinho quer rever dívida de aproximadamente R$ 200 bilhões de Minas

A principal cobrança de Cleitinho é diretamente ligada ao futuro governo de Minas Gerais.

Durante encontro com Flávio e lideranças mineiras em Brasília, o governador eleito pediu um compromisso para rever a dívida de Minas Gerais com a União, estimada em cerca de R$ 200 bilhões.

A proposta defendida por Cleitinho é que parte do dinheiro que hoje sairia mensalmente dos cofres estaduais para pagamento da dívida possa ser convertida em investimentos dentro do próprio estado, principalmente em infraestrutura e segurança pública.

Flávio aceitou publicamente discutir o tema e afirmou que assumia o compromisso com Minas.

Para Cleitinho, a dívida reduz a capacidade do governo estadual de investir diretamente em serviços para a população.

O governador eleito já havia deixado claro, ainda antes da reunião em Brasília, que queria conversar com Flávio sobre o assunto e cobrar um “olhar mais diferenciado” para Minas caso o senador seja eleito presidente.

Cleitinho também pressiona pela escala 6x1

Existe, porém, um assunto em que Cleitinho e Flávio não estão completamente alinhados: a jornada de trabalho.

Cleitinho defende o fim da escala 6x1, com dois dias de descanso semanal e sem redução salarial.

Nesta semana, ele cobrou que o Senado vote imediatamente uma proposta relacionada à redução da jornada.

A posição gera divergência dentro do próprio campo político que apoia Flávio.

Cleitinho chegou a criticar o senador Rogério Marinho (PL-RN), aliado de Flávio, pela resistência ao tema.

Mesmo assim, afirmou que a discordância não impede seu apoio presidencial.

Portanto, os dois principais pontos levantados por Cleitinho nesta aproximação são:

• renegociação da dívida de Minas com a União;

• avanço da discussão sobre o fim da escala 6x1.

Além disso, o governador eleito quer que Minas tenha maior atenção do próximo presidente, especialmente em investimentos de infraestrutura e segurança.

Cury foi além: colocou oito pontos no papel

O acordo com Augusto Cury teve formato diferente.

O escritor e psiquiatra, que terminou o primeiro turno na terceira colocação com 3.448.569 votos, ou 2,89% dos votos válidos, apresentou a Flávio uma carta com oito compromissos.

Os dois conversaram por videochamada por mais de uma hora.

Flávio assinou o chamado “Termo de Compromisso Público com o Brasil”, datado de 8 de outubro.

O documento afirma expressamente que não existe troca de cargos ou vantagens pessoais e registra que Cury manterá liberdade para cobrar e criticar um eventual governo.

O próprio texto afirma que o apoio “não constitui um cheque em branco”.

1 — Fim da reeleição presidencial

O primeiro compromisso é acabar com a possibilidade de reeleição para presidente da República.

Cury é contrário à reeleição e defende maior alternância de poder.

Flávio se comprometeu a defender uma mudança constitucional sobre o assunto.

Como uma alteração desse tipo depende do Congresso Nacional, um eventual presidente não poderia implementar a medida sozinho.

2 — Mudança na educação e valorização dos professores

Outro pedido envolve uma ampla mudança na educação.

Entre os pontos defendidos estão:

• expansão do ensino em tempo integral;

• valorização salarial e formação continuada dos professores;

• ampliação do ensino técnico;

• conteúdos ligados a educação financeira, empreendedorismo e oratória;

• maior atenção à saúde mental;

• políticas de neuroinclusão nas escolas.

Flávio assinou o compromisso de trabalhar pela incorporação dessas propostas.

3 — Rede nacional de telemedicina no SUS

Cury também pediu a criação de uma grande estrutura de telemedicina integrada ao SUS.

A proposta prevê utilização de tecnologia, inteligência artificial e atendimento remoto para tentar reduzir filas de consultas com especialistas.

O objetivo é facilitar principalmente o atendimento de moradores de regiões distantes dos grandes centros e da população mais vulnerável.

4 — Proteção às mulheres

Outro compromisso é transformar o enfrentamento à violência contra a mulher em prioridade nacional.

Uma das propostas mais específicas apresentadas por Cury é a criação de um sistema tecnológico com botão de pânico conectado às forças de segurança.

O acordo também prevê fortalecimento de delegacias especializadas, acolhimento psicológico, medidas protetivas e ações para ampliar a autonomia financeira de mulheres vítimas de violência.

5 — Incentivo ao cooperativismo

Cury pediu ainda maior apoio do governo federal às cooperativas.

O acordo fala em fortalecimento do cooperativismo e incentivo à chamada verticalização agroindustrial, aumentando a capacidade de produtores transformarem matéria-prima em produtos de maior valor agregado.

6 — Crédito para milhões de microempresas

O sexto compromisso coloca o empreendedorismo no centro da política econômica.

Cury quer que o BNDES, em parceria com bancos e instituições de desenvolvimento, amplie o financiamento destinado a pequenos negócios.

O plano também menciona a criação de escolas de empreendedorismo em comunidades e escolas públicas.

Flávio assinou o compromisso.

7 — Dobrar a produção brasileira de alimentos

Na agricultura, a carta estabelece uma meta ambiciosa: dobrar a produção brasileira de alimentos em dez anos.

O plano prevê investimentos em ciência, tecnologia, irrigação sustentável, bioinsumos, infraestrutura e crédito rural.

Também há previsão de ampliar a agregação de valor à produção brasileira e fortalecer novamente as cooperativas.

8 — “Pacificação nacional”

O último ponto é político.

Cury pediu que um eventual governo Flávio Bolsonaro não seja conduzido por vingança ou perseguição contra adversários políticos.

O documento estabelece o compromisso de governar para eleitores de direita, esquerda, centro e também para quem não possui identificação ideológica.

Flávio aceitou o pedido e declarou que pretende olhar para frente caso vença a eleição.

Cury já havia feito outra cobrança a Flávio durante a campanha

Existe ainda um detalhe importante.

Antes do primeiro turno, Augusto Cury havia feito críticas duras a Flávio Bolsonaro por causa das suspeitas relacionadas ao Banco Master e ao projeto cinematográfico “Dark Horse”.

Na época, Cury chegou a afirmar que Flávio precisaria provar que não era corrupto e explicar o caso antes de receber seu apoio.

Ao anunciar a adesão nesta semana, porém, Cury concentrou sua justificativa nos oito compromissos programáticos assinados pelo candidato.

Em entrevista à Exame, ele afirmou que Flávio aceitou suas reivindicações, mas não detalhou de que forma considerou superadas todas as condições anteriores relacionadas ao caso Master.

Apoios têm pesos diferentes

Politicamente, Cleitinho e Cury entregam ativos diferentes à candidatura de Flávio.

Cleitinho acaba de ser eleito governador de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, e pretende mobilizar prefeitos e lideranças dos 853 municípios mineiros em favor do candidato do PL.

Cury, por sua vez, chega ao segundo turno carregando os mais de 3,4 milhões de votos conquistados nacionalmente na primeira votação.

Não existe garantia de que esses votos serão automaticamente transferidos para Flávio.

Mas, em uma eleição apertada, as campanhas buscam não apenas os eleitores de antigos adversários, mas também o apoio público e a estrutura política dessas lideranças.

Afinal, o que cada um pediu?

Cleitinho Azevedo

• renegociação da dívida bilionária de Minas com a União;
• possibilidade de transformar parte dos pagamentos em investimentos no próprio estado;
• recursos para infraestrutura e segurança;
• maior atenção federal a Minas Gerais;
• avanço da discussão sobre o fim da escala 6x1.

Augusto Cury

• fim da reeleição presidencial;
• reforma da educação e valorização dos professores;
• expansão da telemedicina pelo SUS;
• políticas de proteção às mulheres;
• fortalecimento do cooperativismo;
• crédito e incentivo às microempresas;
• aumento da produção brasileira de alimentos;
• compromisso de pacificação política do país.

Com pouco mais de duas semanas até o segundo turno, a disputa agora é também para saber quantos dos eleitores de Cleitinho, Cury e outros apoiadores acompanharão suas escolhas no dia 25 de outubro.